Carregando...

atbpa@atbpa.com.br

+55 (94) 99238-7039

Saúde Animal: Acidentes Ofídicos em Equinos

São quatro tipos de serpentes peçonhentas no Brasil que podem causar quatro tipos de acidentes. Conheça cada um deles no artigo e os procedimentos que devem ser feitos em caso de picada

 

 

O acidente ofídico é um quadro de envenenamento decorrente da inoculação intramuscular ou subcutânea de toxinas através do aparelho inoculador de serpentes. O envenenamento ocorre somente quando a serpente consegue injetar o conteúdo presente no interior de suas glândulas, o que significa que nem toda picada pode levar ao envenenamento.

A gravidade dos acidentes depende, principalmente, da quantidade de veneno inoculado e essa varia de acordo com o tamanho da serpente, e com o tempo decorrido desde o último ataque realizado por ela. Se ela houver atacado outra presa recentemente, a quantidade de veneno inoculada será menor, levando a um acidente leve, do contrário a quantidade poderá ser maior, levando a um acidente moderado ou grave.

A ocorrência de acidentes ofídicos está, em geral, relacionada a fatores climáticos e ao aumento da atividade humana no campo. Em equinos, a região mais afetada é a cabeça (focinho, região submandibular e língua) devido à posição de alimentação e à curiosidade, porém os membros torácicos, pélvicos e úbere também são comumente atingidos.

São quatro os principais gêneros de serpentes peçonhentas no Brasil que podem causar quatro tipos de acidentes, entre eles o acidente botrópico, provocado por serpentes do gênero Bothrops (conhecidas popularmente como jararacas), o acidente crotálico, provocado por serpentes do gênero Crotalus (conhecidas popularmente como cascavéis), o acidente laquético, provocado por serpentes do gênero Lachesis (conhecidas popularmente como surucucu e surucutinga) e o acidente elapídico provocado por serpentes do gênero Micrurus (conhecidas popularmente como corais).

As serpentes peçonhentas do gênero Bothrops, Crotalus e Lachesis possuem dentes inoculadores bem desenvolvidos e fosseta loreal, um órgão sensorial termorreceptor que permite às serpentes localizar suas presas através da detecção de sua temperatura corporal. As serpentes do gênero Micrurus não apresentam fosseta loreal e possuem dentes inoculadores pouco desenvolvidos, apesar de serem peçonhentas.

ACIDENTE BOTRÓPICO

As serpentes do gênero Bothrops são as mais agressivas, sendo responsáveis por aproximadamente 85% dos acidentes ofídicos no Brasil. Elas compreendem cerca de 30 espécies, distribuídas por todo o território nacional, são serpentes de hábitos noturnos e podem ser encontradas em locais úmidos e sombreados, próximas de rios e lagos. Apresentam cauda lisa, sem chocalho e são popularmente conhecidas como jararaca, ouricana, jararacuçu, urutu-cruzeira e surucucurana.

O veneno botrópico provoca lesões teciduais, hemorragias, por promover a liberação de substâncias que lesam a membrana basal dos vasos, e alterações na cascata de coagulação, sendo também coagulante.

Nas serpentes do gênero botrópico, pode-se observar uma diferença entre o veneno do filhote, que é predominantemente coagulante, e do adulto, que apresenta maior ação proteolítica.

As manifestações clínicas locais incluem dor e edema local. Podendo também haver surgimento de equimoses, de lesões bolhosas e sangramentos no local da picada. Nos casos mais graves, pode ocorrer necrose e formação de abscessos. As manifestações sistêmicas incluem sangramentos em ferimentos preexistentes, hemorragias (gengivorragias, epistaxes, hematêmese e hematúria), sudorese, hipotensão arterial e choque.

As complicações sistêmicas mais comuns são o choque, a insuficiência renal aguda, a septicemia, a coagulação intravascular disseminada e a laminite.

ACIDENTE CROTÁLICO

As serpentes do gênero Crotalus estão representadas no Brasil por apenas uma espécie, a Crotalus durissus. Popularmente conhecidas como cascavel, boicininga, maracambóia e maracá, elas apresentam chocalho e são encontradas em regiões interioranas, em ambientes secos, quentes, arenosos e pedregosos, sendo responsáveis por 9% dos acidentes ofídicos no país.

O veneno crotálico é coagulante, provocando perda da hemostasia pelo uso exagerado de fatores de coagulação, e promove lesões no tecido muscular esquelético que levam à liberação de mioglobina para o sangue e para a urina, fazendo com que haja uma alteração na cor da mesma, que se apresenta escurecida. Além disso, ele também inibe a liberação de neurotransmissores levando a uma paralisia flácida, que pode resultar em parada respiratória.

As manifestações clínicas incluem dores musculares generalizadas, ptose palpebral e distúrbios na coagulação sanguínea.

As complicações locais são raras, podendo ocorrer parestesias locais duradouras, porém reversíveis após algumas semanas. As causas mais importantes de morte são a insuficiência respiratória aguda e o choque.

ACIDENTE LAQUÉTICO

As serpentes do gênero Lachesis são as maiores serpentes peçonhentas da América Latina. São popularmente conhecidas como surucucu, surucucu-pico-de-jaca, surucutinga e malha-de-fogo, habitando áreas florestais úmidas. Elas são responsáveis por 3% dos acidentes ofídicos no país.

O veneno laquético provoca lesão tecidual, leva a hemorragias pelo uso indiscriminado dos fatores de coagulação e promove estimulação vagal e, consequentemente, alterações de sensibilidade no local da picada.

As manifestações clínicas são semelhantes às descritas no acidente botrópico, incluindo dor, edema, equimose, necrose no local da picada além do aparecimento de bolhas com conteúdo seroso ou sero-hemorrágico nas primeiras horas após o acidente. Na maioria dos casos, as manifestações hemorrágicas limitam-se ao local da picada.

Os sinais sistêmicos incluem bradicardia, hipotensão arterial, cólicas abdominais, tonturas e diarreia.

As complicações descritas no acidente botrópico como o choque, a insuficiência renal aguda, a septicemia, a coagulação intravascular disseminada e a laminite, também podem ocorrer no acidente laquético.

ACIDENTE ELAPÍDICO

As serpentes do gênero Micrurus compreendem diversas espécies distribuídas em todo o território brasileiro. São serpentes coloridas, conhecidas popularmente como coral, coral verdadeira, ibiboboca e boicorá, elas podem ser encontradas principalmente na mata atlântica e em regiões litorâneas. Elas apresentam hábitos noturnos, subterrâneos e são pouco agressivas, sendo responsáveis por somente 0,6% dos acidentes. Em contrapartida, os acidentes com as serpentes do gênero Micrurus são os mais graves e letais.

As falsas corais apresentam o mesmo padrão de coloração das verdadeiras, porém os anéis não envolvem toda e sua circunferência e elas são desprovidas de presas inoculadoras, não sendo peçonhentas.

 O veneno elapídico apresenta neurotoxinas, substâncias rapidamente absorvidas e distribuídas pelos tecidos, que fazem com que os sintomas apareçam precocemente, promovendo um bloqueio neuromuscular que leva à paralisia muscular e faz com que esse seja o acidente ofídico mais fatal. Além disso, ele também afeta a junção neuromuscular, bloqueando a liberação de neurotransmissores e impedindo a transmissão do impulso nervoso.

TRATAMENTO

O tratamento fundamental consiste na aplicação precoce de soro antiofídico polivalente, que é indicado para todos os acidentes exceto o acidente elapídico, ou de soros específicos como o antibotrópico, o anticrotálico e o antilaquético. Para as serpentes do gênero Micrurus não existe soro utilizado na medicina veterinária, pode-se fazer o uso de drogas anticolinesterásicas como a neostigmina, que antagonizam o bloqueio neuromuscular, levando a uma rápida melhora da sintomatologia.

Além do soro antiofídico, realiza-se fluidoterapia para recuperação da função renal, uma vez que a principal complicação é a insuficiência renal aguda. Se necessário, pode-se fazer o uso de diuréticos, de analgésicos, de anti-inflamatórios e de anti-histamínicos. Recomenda-se também antibioticoterapia. Em casos de hemorragia intensa é indicada a transfusão de plasma fresco. Para o tratamento da insuficiência respiratória aguda pode-se utilizar neostigmina.

É importante ressaltar que a realização de torniquetes pode fazer o quadro evoluir com complicações que frequentemente levam a óbito. A aplicação de substâncias como fumo, esterco, café e alho no local da picada ou ingestão oral de pinga, álcool ou querosene pelo paciente são desaconselhadas. Deve ser evitada a incisão e a sucção do local da picada, por favorecer infecções secundárias.

PROFILAXIA

Para prevenir acidentes ofídicos é fundamental combater roedores, mantendo a propriedade limpa, não permitindo o acúmulo de lixo ou entulhos, pedras, tijolos, telhas, madeiras ou quaisquer outros materiais que possam atrair ou abrigar pequenos animais que servem de alimentos para as serpentes.

Alem disso, deve-se evitar a realização de queimadas em áreas próximas a propriedade, uma vez que elas fazem com que as serpentes deixem as florestas e procurem abrigo nas cocheiras.

Por  M.V Hélio Itapema , Maria Eduarda Algarve Pavão – Clínica de Equinos Itapema

Foto:divulgação 

Mais notícias